quinta-feira, 22 de setembro de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 10

- M-mas...o que?- perguntei assustada com a informação.
- O que você ouviu: a ambulância de Tyler foi roubada- Matt respondeu.
- Meus Deus...- eu suspirei fechando os olhos- Primeiro o corpo de Jorge é roubado, agora o de Tyler...? Precisamos achar Adelle, ou ela não irá parar!
- Certo...vá a minha casa, bem discretamente- Matt falou com a voz agitada- Não tenho certeza se Missie irá...ela está...
- Eu, com toda a certeza irei!- ouvi a voz de Missie pelo celular.
- Então nos encontre lá daqui duas horas- Matt falou, então desligou o celular. Ao chegar no abrigo, Joguei minha mochila em um canto e deitei-me em minha cama, organizando os pensamentos embaralhados desses últimos dias malucos. Acabei adormecendo como se nada de ruim estivesse acontecendo e deixei-me entrar no mundos dos sonhos. Acordei com o meu celular tocando, pensei duas, ou melhor, dez vezes antes de atendê-lo; resolvi ver quem era o ser que estava me ligando e li na tela: "Matt".
- Oi?- eu perguntei com a voz sonolenta.
- Estava dormindo?- perguntou Matt.
- Sim- eu falei levantando-me- Já deu a hora?
- Sim- ele falou- Quer que eu vá lhe buscar?
- Não, valeu- eu falei saindo de meu alojamento e o trancando- Já estou indo, me esperem.
Desliguei o celular e o coloquei em meu bolso movendo-me automaticamente pelos corredores. Ao sair, senti uma sensação horrível de que estava sendo observada, olhei em volta assustada, mas tudo o que via era algumas pessoas caminhando em suas vidas normais e monótonas. Dei um leve sorriso ao perceber o quanto eu, antes, reclamava de nada novo acontecer em minha vida, bem, agora aconteceu. Depois de uns minutos de caminhada, avistei a casa de Matt, e ao lado, a minha. Um sentimento de tristeza passou pelo me coração, lembrei de Jorge. Mal fez um mês desde que nos mudamos, e aconteceu aquela terrível tragédia. Caminhei para a varanda de Matt e toquei a campainha, imediatamente, ele apareceu com um expressão séria, porém fria.
- Bem, estou aqui- eu falei olhando para o chão.
- Entre- ele falou saindo de frente da porta e deixando que entrasse- Bem, temos uma pessoas a mais em nosso plano.
- Olá- uma mulher alta com cabelos ondulados e castanhos falou.
- Essa é Marie, mãe de Tyler- Carl falou olhando para mim. Ao olhar para a mulher novamente, notei o quanto era parecida com Tyler: os cabelos e cor de pele eram muito parecidos, exceto o fato dos cabelos serem longos e seus olhos serem verdes e não castanhos, como o de seu filho.
- O-olá- eu falei meio sem jeito- P-prazer em conhecê-la senhora...
- Marie, chame-me de Marie, apenas- ela falou com a expressão carregada de raiva, porém sua voz saia calma.
- Sinto muito por sua perda e...- eu falei, engasgando no meio da frase.
- Você não tem nada a se desculpar, ou foi você que o matou?- Marie falou, o jeito em como ela proferiu aquela palavras soou um tanto desconfortável. Balancei a cabeça negativamente- Ao invés de ficarmos sentados chorando por algo assim, devemos evitar que um acontecimento desses aconteça com uma próxima pessoa, não é mesmo, Ally?
- Sim...- eu murmurei.
- Matt contou-me tudo o que aconteceu- ela falou cruzando os braços, notei como seus olhos estavam inchados- Os bilhetes, mensagens e ligações que você tem recebido. Iremos reunir tudo isto e tentar fazer uma ligação com o esconderijo de Adelle, ou qualquer pessoa que possa ter alguma relação com ela. Iremos capturá-la, não importa o que acontecer, e dependendo do caso, não hesitarei em matá-la-
Internamente, dei um belo sorriso. Ela buscava o mesmo que eu: vingança. Gostei de Marie.
- Quero saber se vocês estão de acordo- ela perguntou olhando para cada um de nós.
- Sim- eu fui a primeira a responder. Em seguida, Matt e Carl responderam em uníssono. Depois de um tempo, Missie acenou a cabeça afirmativamente.
- Ótimo- Marie falou sorrindo, como se tivesse ganhado um troféu- Sabem quem ensinou Tyler a hackear? Bem, fui eu. Eu e meu marido trabalhávamos para o governo, agora apenas sou uma mulher desempegada, viúva e sem o filho e que está louca para descontar em alguém.
" Ally, entregue-me todos os bilhetes que Adelle lhe enviou, e deixe-me olhar os números que Adelle usou para ligar para você, assim como ligações, e-mails, qualquer coisa"
- Certo- eu falei desbloqueando meu celular e entregando para Marie. Peguei os dois bilhetes que, por sorte, estavam no bolso de minha calça e entreguei para ela- Isso é tudo.
- Mais do que o suficiente- ela respondeu pegando sua bolsa no sofá e tirando um notebook de lá- Temos que, primeiro, dar um jeito de nos comunicarmos sem que essa mulher saiba o que estamos planejando.
- Podemos "esbarrar" acidentalmente na rua de vez em quando e trocar bilhetes- eu arrisquei- Assim com eu, Matt, Carl e Missie podemos fazer "trabalhos escolares" juntos.
- Perfeito- ela respondeu olhando as mensagens e números em meu celular- Mas com o tempo pode parecer suspeito. Então, faremos isso literalmente de vez em quando.
  - Sim. Há chances de você hackear a localização dela, certo?- perguntei com a voz mais firme que pudesse fazer.
  - Mas é claro- falou Marie digitando rapidamente e usando algum aplicativo ou seja lá o que for, próprio para isso- Bem, vocês mencionaram de Agnes, filha dela, certo? Iremos começar por essa... garotinha. Quero o número de celular dela.
  - Aqui está- Matt falou entregando seu celular com o número de Agnes já na tela.
  - Perfeito...- murmurou Marie, mais para si mesmo do que para nós. Depois de cinco minutos sob alta pressão, Marie estralou os dedos, notei que o modo como agia era mais parecido com o de um adolescente, como o de uma mulher de quase cinquenta anos de idade.
  - Conseguiu algo?- perguntou Carl, esperançoso.
  - Consegui identificar a localização de Agnes, quero dizer, é seu celular, mas vocês jovem de hoje em dia andam com esse troço de um lado para o outro!
  - Tá, e então?- perguntou Matt, um pouco mais arrogante do que pretendia, percebi.
  - Ela está...- Marie falou ansiosa olhando para a tela do notebook- Nesta sala!
  - O quê?!- Missie falou surpresa.
  - Ande, liguem para o celular dela!- Marie ordenou. Matt pegou seu celular que estava com Marie e ligou para Agnes. Não passaram dez segundos e ouvimos o toque de seu celular: uma música clássica, somente ao som de piano, mas dava uma sensação horrível em seu coração, como se fosse para lhe deixar triste, depressivo e ao mesmo tempo com medo. O som, pelo o que ouvi, estava vindo da bolsa de Missie.
  - Mas o quê?- murmurou indo em direção a sua bolsa e pegando o celular. Na tela estava escrito "Missy". Apertou o botão de desligar o celular e, neste mesmo momento, de dentro do celular, mais precisamente da câmera frontal, saiu uma agulha da finura do celular e perfurou o pescoço de Missie. Soltei um grito com o susto que levei. Marie saiu do sofá imediatamente e foi até Missie, Carl entrou em desespero e foi até a namorada, também. Ouvi o som da impressora, ela estava no canto da sala, ao lado de um computador, e vi uma folha saindo de lá, caminhei até lá e peguei o papel.
  "Parece que o trabalho terá de ser mais discreto e eficiente! Hahahaha!
  1-1. Quais ama"
  Dei um longo suspiro e fui até Missie, para saber se estava viva ou não.
   - Precisamos chamar uma ambulância!- exclamei assustada com o fato de algo tão frágil ter matado Missie. E de ter saído de um lugar tão improvável.
  - E como iremos explicar o que aconteceu? Que uma agulha saiu da câmera de um celular e acertou a garganta de Missie?!- Marie falou irritada- Não acredito que ela descobriu...
  - Missie...Missie...- Carl murmurava entre soluços, fazendo com que suas lágrimas caíssem no rosto já morto de Missie. Meu olhos encheram-se de lágrimas. Estava triste. Por mais que não a conhecesse muito bem, sabia que era uma boa garota. E agora ela estava morta. Assim como Jorge e Tyler. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, apressei para que a limpasse e dei um longo suspiro, tentando me acalmar. Ouvi o som de uma mensagem. Olhei para o celular que estava jogado no chão. Peguei-o sem hesitar e li a mensagem. Número desconhecido.
  Número desconhecido: Não precisará mais se preocupar com o corpo.
  Senti uma enorme raiva de Adelle, senti vontade de atravessar o celular e a matar. Nunca sentira tando ódio na minha vida quanto sentia de Adelle. Uma completa vadia. Pensei em responder, mas deixei quieto. Coloquei o celular no chão e cobri meu rosto com as mãos, pensando em qual seria seu próximo alvo, quando e onde. Então ouvi um barulho, três "bips" seguidos, com uma pausa de três segundos a cada "bip". Contei mais dez, com uma pausa de milésimos. Então ouvi um longo "bip" que durou dez segundos. O celular explodiu. Isso mesmo que você está lendo. Ele explodiu. Não aquela explosão devastadora. Mas uma pequenina explosão, que fez com que uma fumaça preta se espalhasse por todo local. Ao respirar a fumaça pela primeira vez, senti meus pulmões queimando, minha garganta ardia e queimava, como se alguém tivesse me obrigado a tomar lava. Senti meus órgãos doendo, uma dor insuportável. Caí no chão devido o fato de meus músculos começarem a ficar fracos. Comecei a tossir como uma pessoa com tuberculose, mas saia sangue da minha boca, e  não fazia a mínima ideia do que havia inspirado. Olhei em volta, mas não via nada, estava tudo preto. Tentava ouvir alguma coisa, mas era como se estivesse surda. Meu corpo voltou ao normal, mas eu fiquei com sono. Um sono fora do normal, minhas pálpebras se fecharam rapidamente, e adormeci.
  Pareci que dormira por dias, mas ao acordar, estava no mesmo local, na sala da casa de Matt. Olhei em volta e todos estavam adormecidos ainda. Levantei-me e olhei pela janela, ainda estava escuro. Fechei meus olhos e os abri novamente, olhei para o chão e consegui distinguir o corpo de Matt, Carl e Marie. Porém o corpo de Missie não estava lá. Apertei os olhos e olhei novamente para onde, antes, o corpo morto de Missie estava; realmente, ela não estava lá.
  Porém havia um bilhete amarelo. Andei até lá e peguei o bilhete: "1-1. Quais ama", no verso: "Tic Tac". Era o segundo bilhete. O que aquilo significava?. Olhei em volta pelo que parecia vigésima vez e comecei a tentar acordar os outros. Primeiro tentei acordar Matt.
  - Ei, Matt? Acorda!- falei balançando o garoto. Este, abriu os olhos lentamente, fechou-os novamente e em seguida os abriu novamente.
  - Hã?- murmurou levantando-se e massageando sua cabeça.
  - Você está bem?- perguntei.
  - Sim, mas... o que diabos aconteceu?- perguntou confuso e olhando em volta.
  - Acho que Adelle entrou aqui e roubou o corpo de Missie e... olhe o bilhete que ela deixou- falei entregando-lhe o bilhete.
  - Tic Tac?- ele murmurou dando um longo suspiro- O que significa?
  - Sem ideias- falei olhando para o chão.
  - Ei, ajude-me a acordar os outros... - murmurou, agora sua voz estava triste. Vi seu olhar direcionando-se ao lugar em que o corpo de Missie estava.
  - Carl, Marie, acordem, andem- Matt falou balançando os dois. Não passou um minuto e ambos acordaram, também perguntando o que houve. Depois de Matt explicar, Carl olhou para onde estava Missie e foi até lá, desesperado. Apertou os lábios e lágrimas começaram a sair de seus olhos. Tentei falar alguma coisa confortante, mas o que poderia confortá-lo apos uma perda? Nada.
  - Olhe, a gente poderia... - tentei falar.
  - O quê? Chamar a polícia?- perguntou Marie- Não é o tipo de trabalho que ela conseguiria resolver.
  - Como assim?- perguntei, curiosa. Marie calou-se, ouvíamos apenas a voz de Matt tentando acalmar Carl, que estava completamente acabado e triste- Preciso de ar- murmurei, na verdade, apenas não queria ficar ali, naquele momento triste e depressivo, estava cansada de momentos assim. Ao abrir a porta, vi água ao invés da varanda da casa, porém era tarde de mais para notar aquilo, pois já havia caído dentro da água. Nadei até a superfície e olhei em volta. Nada da rua em que morava antes, muito menos Hilston. Quero dizer, em Hilston não há selvas, há?
  Eu apenas via árvores para todo lado, e em minha volta, um enorme lago. Olhei para trás e a casa estava lá, porém era como um ilha no meio de toda aquela água. Estava tudo muito confuso. Ouvi movimentos na água um pouco mais adiante de mim, ao olhar para a direção do barulho, vi um... um... crocodilo? Isso, um crocodilo nadando rapidamente em minha direção.
  - Ai meu Deus!- gritei apoiando-me no chão da casa e começando a me levantar. Ao sair completamente da água, fechei a porta com um estrondo e encostei-me nela, como se o crocodilo fosse abrir a porta.
  - Ally? O que houve?- perguntou Marie correndo em minha direção.
  - Eu não sei!- exclamei- P-parece que... que estamos em uma selva ou sei lá o quê!
  - Hã?- perguntou olhando-me de cima a baixo, provavelmente estava confusa devido o fato de eu estar encharcada. Viu meu corpo molhado e caminhou até a janela, ao olhar, seu queixo caiu. Matt foi até nós e, ao olhar a janela, também surpreendeu-se- Acho que estamos presos em uma selva.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 9

  - Hã, o que?- Tyler perguntou envergonhado. Neste instante, o sinal tocou e seus amigos de despediram indo embora e me olhando com um olhar um tanto assustado.
  - E aí? O que me diz?- eu perguntei o barrando, pois estava querendo ir para a classe.
  - Hã...tenho certeza de que você não irá gostar de se atrasar no seu primeiro dia de aula em...ah...dias- ele falou meio embaraçado.
  - Me dê uma resposta ou ficaremos aqui por um bom tempo. Tenho o dia inteiro disponível!- eu falei já ficando com raiva.
  - Okay, okay- ele disse sem paciência- Mas por que você precisa do número dela ou informações sobre ela?
  - Eu não sei se você sabe mas...as digitais de Adelle foram encontradas na arma do crime, que assassinou meu pai! Agnes é filha dela! Eu preciso dar um jeito de encontrá-la!
  - Mas o que você vai fazer?- ele perguntou arrumando os óculos que usava.
  - Eu...eu...olha, quer saber? Isso não é do seu interesse! Só quero saber a resposta!- eu falei com raiva. Na verdade, estava procurando por vingança, estava decidida a fazer nada com Agnes, mas sim com Adelle. Ela precisava  sentir o gosto da vingança. Ela não deveria ter feito o que fez.
  - Me diga o que vai fazer, Agnes é minha amiga- Tyler falou com raiva e um tanto assustado também.
  - Escute: relaxa, não farei nada com Agnes. Meu interesse é em Adelle. Ela é filha ent...
  - Você está querendo vingança, não é? Escute, o que isto irá lhe beneficiar...?- ele perguntou “lendo” meus pensamentos.
  - Eu apenas estou fazendo o trabalho que a polícia não está fazendo. Ela precisa ir para atrás das grades! E se ela resolver matar mais alguém? E se esse alguém for de sua família ou você?- eu comecei a falar, puxando para o lado mais pessoal. O lado que machucava: família.
  - Promete que não fará nada com elas?- ele perguntou tentando manter a calma.
  - Okay. Só responda!- eu falei olhando para ele.
  - Tá certo! Me fale quando temos de começar, irei lhe ajudar!- ele falou olhando para o chão. Sorri para ele, então nós saímos da biblioteca. Ele indo para um lado e eu para outro. Mais precisamente para a aula de literatura.
  - Você está atrasada... Quase dez minutos!- professora falou sem olhar para mim. Apenas de frente para o quadro escrevendo seja lá o que for.
  - Desculpe...professora- eu falei, não tivera aula de literatura, então não sabia seu nome.
  - Ah, você é Ally Spinnet, certo?- ela perguntou ao virar para a porta, olhando para mim meio culpada. Acho que a escola inteira sabia do ocorrido.
  - Só Ally- eu falei entrando na sala e ignorando os olhares que recebia. O único lugar disponível era um ao lado de Olívia. Teria de sentar lá, mesmo não querendo.
  - Olá Ally, o que achou de suas férias?- ela falou e tom de provocação.
  Pensei em dizer algo para ela, do tipo: “E com quantos garotos ficou neste tempo?”, porém ignorei essa frase idiota e fiquei quieta, a ignorando. A última coisa que queria era arrumar confusão com a pessoa errada.
  A professora continuou com a sua aula e explicou que teríamos de ler um livro para depois discutirmos sobre ele. Era sobre um assassinato. Mesmo que pensara que aquilo poderia ser por minha causa, ninguém sabia quem assassinou Jorge, mas logo saberiam, os boatos rolam muito rápido. Bem, seria ótimo para que pudesse ter algo em que “apoiar” para tentar capturar Adelle. O sinal tocou e outra aula começou, e o dia se passou.
  Enquanto ia em direção a saída da escola, senti alguém tocando em meu ombro e virei bruscamente assustada. Seria medo de me encontrar com Adelle inesperadamente no meio do corredor da escola? Não, era apenas...Matt.
  - Hã...então, quer voltar conosco?- ele perguntou meio sem graça. Um pouco mais atrás, Missie e Carl se aproximavam de mãos dadas.
  - Desculpe, eu...
  - O que isso irá lhe custar?- ele perguntou erguendo as sobrancelhas.
  - Okay, tudo bem, irei voltar com vocês- eu falei revirando os olhos.
  - Apenas precisamos achar Tyler. Ele deve estar na frente da escola ou na biblioteca- Matt falou indo em direção à saída. Eu o segui, assim como o resto da “panelinha-que-estava-incompleta”. Ao sairmos da escola, Haia uma multidão de pessoas e murmúrios para todo o lado. Essa multidão estava em volta de alguma coisa, meu coração começou a bater mais forte. Comecei a empurrar as pessoas para ver o que estava acontecendo, sem olhar para trás para ver se Matt, Carl e Missie estavam me seguindo. Ao chegar no centro de tudo, vi um corpo caído no chão com sangue ao seu redor. O meu celular começou a tocar, o peguei e deslizei meu dedo sobre a tela.
  - Olá Ally, tudo bem? Apenas quero comentar que hack é crime!- era a voz de Adelle, pensei em rastrear aquele número, mas logo os dois primeiros números, lembro-me, eram diferentes do o de ontem; Adelle desligou o celular. “Hack é crime!”, pensei na frase. Então ao olhar para o corpo que estava rodeado por alguns professores, percebi que, ao ver uma brecha, era Tyler, com uma faca em seu peito. Meu coração começou a bater muito mais rápido do que antes. Ouvi o barulho de sirenes de ambulâncias e carros policiais se aproximando. Sai da multidão correndo.
  - Ei! Ally, o que está havendo?- perguntou Matt preocupado e me segurando para que não saísse correndo.
  - Eu...e-eu sinto mu-muito...mesmo- eu disse com lágrimas nos olhos e com a voz fraca.
  - Ei, o que está havendo?- Carl perguntou também.
  - T-tyler...o corpo...sangue e...- eu gaguejei. Não conseguia formar a frase. De novo. Os olhos deles foram tomados pelo horror, Carl e Missie adentraram na multidão para ver e era verdade. Matt ficou comigo tentando me acalmar. Senti algo batendo em minha cabeça e caindo. Olhei para trás e depois para o chão. Lá estava uma bolinha de papel. Abaixei e a peguei, comecei a abrir o papel com medo do que estaria escrito lá. Ao terminar de abrir, o papel estava amassado e, nele, estava desenhado um garotinho gorducho, baixinho e de óculos. Em sua blusa estava escrito em uma letra miúda: “HACKER NOJENTO!”; em cima do garoto, que deduzi ser Tyler, estava escrito: “1-1. Quais ama.”
  - Ei, o que é?- Matt perguntou olhando em meus olhos.
  - Aqui- eu disse entregando o papel para ele. Ao terminar de analisar o desenho, seu rosto perdeu a cor- Foi o mesmo que recebi ontem, com a mesma frase: “1-1. Quais ama.”
  - Ei, Ally, devemos levar isso à polícia! Isso é algo realmente sério!- ele falou erguendo a mão em que estava o papel. Sua voz estava fraca.
  - Eu...eu também acho- eu murmurei. No mesmo momento, meu celular vibrou. Tirei ele do meu bolso, novamente, e havia uma nova mensagem. Número desconhecido. Deslizei o dedo sob a notificação da mensagem e a li:
Número desconhecido: Se fosse você, querida Ally, não levaria isso à polícia. A não ser que queira seus amiguinhos mortos.
Eu: O que você quer de mim?!
Número desconhecido: A pergunta seria o que quero lhe dar Ally...!
Eu: E o que é...?!
Número desconhecido: Desespero e desgraça!!
  Mostrei a mensagem a Matt. Ele leu espantado.
  - Não acha que também deveríamos mostrar isso a polícia?- ele perguntou ainda aterrorizado e com a voz fraca e baixa.
  - Não! Eu não quero ver mais sangue ou corpos mortos! Você não leu?- eu perguntei um tanto irritada.
  - Ah...mãe de Tyler- Matt disse desviando do assunto e olhando adiante. Olhei para onde seus olhos estavam direcionados. Uma mulher alta e magra chorava desesperadamente sobre uma maca que estava sendo levada para dentro da ambulância.
  - Você não quer ir para o hospital descobrir o que vai acontecer com Tyler?- eu murmurei ainda olhando para a cena.
  - Eu...eu vou- ele falou tristemente. Me devolveu o papel e foi em direção a Missie e Carl. Ela chorava enquanto Carl a abraçava, quem sabe para amenizar a dor de perder um amigo. Dei uma última olhada para tudo e sai dos “domínios” da escola, indo para o abrigo. Peguei o celular e salvei o número desconhecido como “Adelle”. Mesmo que ela sempre mudasse o contato, o número poderia me levar ao local em que estava escondida, para então resolver o que fazer com ela. Ela matara Jorge sabe-se lá o porquê; Tyler porque iria me ajudar a hackear sua localização ou coisas do tipo. Quem mais poderia assassinar? E a polícia ainda duvidara se ela realmente matara Jorge. Apressei o passo com medo, estava muito exposta. Ela sempre dá um jeito de acompanhar todos os passos, ou seja, tenho de dar um jeito de dar passos falsos para que ela os acompanhe, então ficarei a frente, e então realizarei a vingança.
  O celular começou a vibrar, meu coração começou a bater rápido. Parei bruscamente no meio da calçada e peguei o celular que guardara em meu bolso. Era Matt.
  - Então, já sabe alguma coisa sobre Tyler?- eu perguntei com a voz fraca.
  - Ally, a mãe de Tyler foi tirada à força da ambulância enquanto estava em movimento. Por pouco uma viatura não a atropelou, estou indo para o hospital para ver como ela está- ele falou com a voz acelerada e tensa.
  - Espere, e enquanto a Tyler?- eu perguntei confusa e assustada.
  - Não sabemos de nada- ele continuou- Estávamos logo atrás das viaturas e conseguimos ver um pouco. Parece que os médicos que estavam na ambulância roubaram a vã junto com Tyler dentro. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 8

 - Hospital...- eu murmurei desligando o telefone com lágrimas nos olhos. O que estava acontecendo? Será que não poderia ter um momento de paz? Peguei o papel que estava guardado em meu bolso escrito “1-1. Quais ama” e o encarei por um instante.
  - O que houve?- perguntou Matt olhando para mim pelo retrovisor do carro.
  - Vá para o hospital imediatamente!- eu falei com raiva. Ele olhou para mim um tanto assustado, e virou repentinamente uma rua e começou a seguir caminho para o hospital. Eu olhei para a janela pensando em duas hipóteses: 1) Jorge revivera; 2) Jorge não é um zumbi para reviver e alguém o roubou, provavelmente Adelle. Tentei juntar o quebra-cabeça em minha mente mas sempre a imagem que saia no final era a de Adelle. Tentei manter a calma, tentando pensar em algo lógico, mas nada daquilo havia lógica! Um corpo, já morto, ser roubado do necrotério? Isso é coisa de psicopata!
  - Você pode nos contar o que houve?- Missie falou gentilmente.
  - Jorge...- eu falei olhando para ela- O corpo de Jorge não está no necrotério mais...
  Todos olharam para mim assustados, ignorei os olhares que recebia e voltei a olhar para a paisagem repleta de casas e lojas. Olhei para a loja que Jorge e eu fomos comprar os móveis para a casa. Um dor subiu e meu peito, e um sentimento de vingança espalhou-se pelo meu corpo. Iria tirar de Adelle o que ela tirara de mim, não importa o que aparecesse em meu caminho.
   Entramos no estacionamento do hospital e paramos. Sai do carro correndo e entrei no hospital desesperadamente. Olhei em volta e vi alguns policias conversando com uns médicos. Vivian também estava lá, porém não me viu. Corri em direção a eles.
  - Ei!- eu falei ao chegar- O que...como...quando...Jorge e...- eu falava sem conseguir criar uma frase coerente.
  - Ally Sppinet, certo?- uma médica falou olhando para mim.
  - S-sim...- eu falei ignorando o “Spinnet”.
  - Bem, iríamos preparar Jorge para o enterro, mas ao entrarmos...ele simplesmente havia sumido- ela falava rapidamente.
  - Já olharam as câmeras de segurança?- eu perguntei.
  - Já, mas aparece apenas um vulto preto, ainda estamos tentando identificar quem é- Vivian falou com a expressão séria.
  - Mas...mas então é isso? Vocês...vocês não têm seguranças aqui neste...hospital?- eu perguntei tentando controlar a raiva. Olhei para trás e vi Carl, Missie e Matt na porta de entrada olhando para mim- E eu não fiquei sabendo de nenhum enterro!
  - Ally, iríamos lhe falar- Vivian falou com culpa em sua expressão.
  - Okay, e vocês tem um enorme senso de responsabilidade! Deixa uma pessoa...-eu engasguei- morta sumir...?
  - Ally, iremos resolver isso!- um médico falou tentando me acalmar.
  - Primeiro: ele é brutalmente assassinado dentro da própria casa. Segundo: vocês desconfiam que Jorge fez algo com Adelle. Terceiro: ele simplesmente some do necrotério. Quarto: vocês já decidem o que fazer com ele sem eu saber de nada!- eu falei listando tudo o que estava acontecendo comigo nestes últimos dias.
  - Ally, acalme-se por favor!- um policial disse em tom de alerta- Iremos desvendar este caso, temos bons policias.
  - Há- eu ri ironicamente- Tão bons que Adelle já está presa e Jorge já está pronto para o enterro, não é mesmo?
  Os policias olharam para mim em tom e autoridade e alerta, como se eu fosse presa por falar com eles deste modo. Olhei para todos e comecei a caminhar em direção a porta.
  - Ei, você está bem?- uma enfermeira que estava atrás de um balcão falou ao ver minha testa.
  - Melhor impossível- eu forcei um sorriso e sai do hospital.
  - Ei, o que houve?- Carl perguntou andando ao meu lado.
  - Já não lhe contei?- eu falei com raiva- A única informação complementar é que não acharam o autor do crime.
  - Você tem alguma ideia de quem seja?- Matt perguntou já entrando no carro.
  - Sim- eu falei entrando no carro e fechando a porta.
  - E quem é?- ele perguntou esperando que todos entrassem para ligar o carro e sair do estacionamento.
  - Adelle- eu falei com raiva.
  - Mãe de Agnes?- Missie falou tom deboche na voz- Impossível, ela é uma mulher incrível.
  - Então por que as digitais dela estão na arma de crime?- eu falei olhando para ela com ódio no olhar. Ela ficou sem expressão e se calou, todos se calaram. Matt deduziu que eu fosse para o abrigo, então me deixou lá. Sequer acenei para eles, apenas entrei no abrigo tentando ser forte. Subi as escadas já tentando decorar onde meu quarto ficava, ficaria lá por mais um tempo.  Abri a porta do quarto e a tranquei. Peguei minha mochila e comecei a organizar meu material, fazia um bom tempo que não ia para a escola. Abri a pequena janela que ficava em cima da mesinha e coloquei meu pescoço para fora, vendo algumas pessoas na rua, continuando com suas vidas normais e talvez, felizes. Tirei a cabeça de fora da janela e sentei-me na cadeira, pensando em como acharia Adelle. Vingança. Tirar alguém dela? No que estava pensando? Estaria sendo pior do que ela, não é? Olhei para o calendário sem noção de que dia da semana eu estava, ou o dia que Jorge fora assassinado. Pelo menos sabia que fazia, mais ou menos, duas semanas desde que fora para a escola pela última vez.
  Peguei um roupão, um par de chinelos, shampoo, condicionador e sabonete e fui direto para o banheiro. Pelo o pouco que lembrava, havia um banheiro para cada dois andares do prédio no final do corredor. Teria de subir para o sexto andar. Fui para o início do corredor e subi as escadas, depois fui para o final do sexto andar, lembrando em como fazia uma confusão para achar as coisas neste local. Agora acho que estava um tanto acostumada. Entrei e acendi as luzes, caminhei até o fim do recinto e entrei na parte dos boxes. Coloquei minhas coisas em um armário e entrei em um box, liguei o chuveiro deixando a água escorrer pelo meu corpo. Lembrava de que toda vez que ia tomar banho chorava, por que agora não? Tentei “consultar” meu coração e, sim, havia vestígios de tristeza e saudades, mas parecia que estavam sendo ocupados por ódio e sede de vingança. Isso não era bom. Tentei pensar em coisas felizes, mas todas giravam em torno de uma pessoa: Jorge. E nisso resultava em sua morte, que resultava em Adelle. Depois de longos minutos tendo diversos pensamentos, terminei o banho e voltei ao meu quarto. Sentei-me em minha cama e escondi meu rosto em minhas mãos, como seria amanhã? Teria de, provavelmente, enfrentar olhares e “meus sentimentos” pelo resto do mês. Esse pensamento resultou em Adelle, novamente. Meu coração estava sendo consumido por ódio. Troquei-me e peguei um livro para passar o resto do dia lendo, pelo menos não ficaria nesse mundo horrível. Enquanto passava os olhos pelas linhas e meu cérebro montava todo o cenário, minhas pálpebras iam pesando, até meus olhos fecharem e eu dormir.
  Acordei com o famoso “despertador natural” e me troquei, peguei minha mochila e fui para o refeitório. Tomei o “delicioso” café da manhã e sai daquele lugar. Fui caminhando em direção do caminho da escola, que esperava não ser o errado, e ocupava meus pensamentos com o último livro que lera. Estava me aproximando da escola e vi alguns pais deixando seus filhos lá, adolescentes saindo do ônibus escolar, alguns chegando de uma caminhada e outro saindo de seus carros. Lembrei do meu carro e pensei no que havia acontecido com ele. Afastei esse pensamento e continuei com a minha caminhada, entrei na escola atraindo alguns olhares. Abaixei a cabeça e caminhei até o meu armário, como não sabia o dia de hoje, simplesmente enfiei todos os livros na mochila, a deixando pesada, e fui para a biblioteca para esperar o sinal. Muitas pessoas me pararam, me abraçaram ou falaram “meus sentimentos”, “sinto muito”, ou coisas do gênero. Não falei nada, apenas continuei indo em direção a biblioteca. Vi Tyler conversando com alguns meninos e lembrei-me de que ele andava com Agnes, que era supostamente a filha da assassina do meu pai. Teria de perguntar a ele sobre Agnes, e perguntar a Matt, Missie e Carl também. Não perguntara ontem pois o carro estava com a atmosfera pesada depois que acusara Adelle.
  - Ei! Tyler!- eu falei aproximando-me dele.
  - Ah, oi Ally. Como vai?- eu ele perguntou meio culpado- Então...meus pêsames sobre o que aconteceu e...sinto muito mesmo por aquela pegadinha. Sempre fazemos com os alunos novos e...
  - Tá, ta, já sei. Obrigada e eu te desculpo- eu falei apressada- Sei que é meio estranho mas...você sabe sobre Agnes? Ela tem vindo na escola ultimamente?
  - Agnes...? Ah, não, sinto muito. Não a vejo desde que você parou de vir para a escola. Ela sumiu, ninguém sabe onde ela está- Tyler falou coçando a cabeça.
  - Ah, você tem o número de telefone dela ou alguma coisa do tipo?- eu perguntei para ele esperançosa.
  - Sinto muito, eu tenho mas a maioria da escola já tentou ligar para ela- ele falou olhando para os amigos dele- Parece que o número não existe mais...
  - Ei...você é o que pulou de ano, não é?- eu perguntei balançando a cabeça e me lembrando do que ouvira antes. Ele deveria estar no nono, e agora estava no segundo.
  - Ah...sim, sou eu- ele falou dando um sorriso meio sem graça.
  - Você sabe mexer com coisas de computador?
  - De que tipo?
  - Hackear...?- eu perguntei. Droga, muito direta.
  - Ah...soa meio estranho mas...hã...eu sei sim- ele falou corando.
  - Ah, certo. Você irá me ajudar?- eu perguntei.
  - Com o que?
  - Hackear tudo o que possa levar contato a Agnes!


terça-feira, 21 de junho de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 7

- Ei! Ei!- uma secretária que não conhecia tentou me parar saindo do balcão e colocando-se em minha frente- Aonde pensa que está indo?
  - Deveria lhe falar?- eu perguntei tentando sair de sua frente.
  - Nada disso garota, você não pode sair à hora que quiser- ela falou olhado de cima abaixo para mim com uma cara de desgosto- Aliás, me falaram que você não pode sair do prédio.
  - Mas um policial me ligou avisando que as digitais ficaram prontas!- eu elevei a voz.
  - Há provas?- ela falou, no mesmo instante, o telefone tocou. Ela me olhou desconfiada e falou para que ficasse paradinha ali enquanto ela atendia ao telefone. Bufei e comecei a andar em círculos- Ally Spinnet, certo?- ela perguntou desligando o telefone.
  - Só Ally- eu corrigi.
  - Está liberada- ela falou desanimada.
 Sai correndo a xingando mentalmente. Enquanto corria, passei em frente a uma pizzaria, adivinha quem estava lá? Matt, Carl, Tyler e Missie. Eles olharam para mim enquanto corria e Matt levantou-se a tempo de pegar meu braço e me parar.
  - Ei! Onde está indo?- ele perguntou olhando a roupa que eu estava vestindo e meu rosto que estava pálido, com olheiras e com aparência de alguém que não come há um tempo. Sem falar no ninho do meu cabelo.
  - Não é do seu interesse!- eu gritei- Me larga agora!
  - Ei...o que foi?- ele perguntou com uma expressão preocupada.
  - Me larga!- eu gritei mais alto, fazendo com que algumas pessoas olhassem para nós dois.
  - Ei, a largue, cara- um homem alto e musculoso falou levantando-se da mesa em que estava sentado. Matt olhou para ele meio assustado e me largou, dei um olhar mortífero a ele e um amigável para o homem alto e musculoso. Ele sentou-se de novo e eu me pus a correr o mais rápido que podia.
  Depois de três quarteirões, cheguei à delegacia. Entrei e parei de correr, olhei em volta e comecei a puxar enormes quantidades de ar. Apoiei-me em uma parede muito cansada, devido à corrida e o fato de não ter comido nada, nem ontem e hoje.
  - Ally!- Vivian me avistou quando saiu de uma porta do outro lado da recepção- O que houve?
  - Onde...estão...os resul...tados das....digitais?- eu perguntei pausando frequentemente para “sugar” mais ar.
  - Estão prontos mas...- ela começou a falar preocupada- Queria saber o que houve com você. Está com um semblante tão...
  - Despencado e descuidado?- eu completei- É, eu sei disso. Mas, sabe né...acabei de perder a pessoa mais importante de minha vida.
  - Estou preocupada e...
  - Você não é minha mãe, ou da minha família. O que está acontecendo comigo não é de sua conta. Agora, os resultados das digitais!- eu falei em tom autoritário recompondo-me.
  - Acompanhe-me, por favor- ela falou olhando para mim com um olhar culpado e triste. Ela abriu a porta por qual saiu e entramos na sala do xerife.
  - Sente-se nesta cadeira por favor, Ally- ele falou olhando para minhas pantufas.
  - Xerife- eu o cumprimentei enquanto me sentava.
  - Então, como já sabe, o que houve há alguns dias atrás foi um crime e...
  - Olha, eu sei o que houve. Só me fala o resultado. Por favor. Não quero saber de mais nada!
  - Bem, na verdade, você precisaria assinar isto e...- ele falou com um pouco de raiva em sua voz, provavelmente pelo modo como falei com ele.
  - Okay- eu peguei uma caneta em um porta-lápis e o papel em que ele estava segurando- Isso?
  - Sim, mas...
  - Pronto- eu falei assinando e entregando para ele- Resultados. Por favor- eu falei com a voz já trêmula.
  - Bem, fizemos os testes das digitais e, realmente Ally, é Adelle a autora do crime- ele falou com um tom de voz triste- Ela está sendo procurada e estamos ainda investigando o caso, precisamos ter certeza absoluta de que Jorge não estava tentando nada contra ela, pois se estava, ela poderá continuar solta. Não consideramos um crime a autodefesa.
  - Está dizendo que meu...que Jorge  tentou algo com ela?- eu perguntei em tom sarcástico- Jorge estava com um sorriso enorme do rosto ao me apresentá-la, para então aquela vaca o matar! Ela é uma assassina- eu falei me levantando- Se vocês não a pegarem, eu mesmo faço isso. Se quiser anotar isto, pode anotar, xerife.
  Antes que ele ou Vivian, que estava ao lado da porta, dissessem alguma coisa, sai correndo da delegacia, atraindo a atenção de alguns policias. Então, quando estava quase saindo, um policia agarrou meus braços e os algemou.
  - Ei! Eu não fiz nada!- eu falei indignada com a situação.
  - Então por que correr?- ele perguntou com uma voz fria. Ele estava me encaminhando para a sala do xerife, então Vivian apareceu no caminho e disse que ele poderia me soltar. Olhei com raiva para os dois e voltei a fazer o meu caminho. Sai da delegacia mordendo a unha, pensando em como conseguiria achar Adelle. Parei ao lembrar o abrigo em que estava. Dei meia volta e voltei à delegacia. Vivian estava conversando com a secretária ou sei lá quem era, e parou ao me ver entrando novamente na delegacia.
  - Algum problema, Ally?- ela falou vindo ao meu encontro.
  - Já que as digitais são da Adelle, quero voltar para minha casa. Imediatamente- eu falei meio envergonhada.
  - Eu vou tentar convencer o xerife, quem sabe até depois de amanhã você volte- ela falou- Mas é melhor se acostumar vindo aqui, ainda temos de decidir aonde você vai morar. E, aliás, não fale daquele jeito com o xerife, você pode ser presa por desacato à autoridade.
  - Eu não ligo!- eu falei com a voz rouca- E, aliás, não quero perder tempo! Quero voltar já para minha casa! Agora ela é minha e eu vou para lá hoje!
  - Ally, as coisas não são do jeito que você pensa que é- ela continuou- Tem um longo processo e...
  - Eu não ligo!- eu disse- Eu quero morar na minha casa!
  - Okay, okay- ela falou olhando em volta como se tivesse alguma preocupação- Eu vou conversar com ele. Mas fique calma, vá para seu dormitório no abrigo e aguarde minha ligação.
  - Feito- eu falei como se estivéssemos em um acordo. Dei um leve sorriso para ela e sai da delegacia, decidi que ela é amiga. Ela é sempre meiga comigo e faz o que um policial qualquer não faria por mim. Depois de andar por um quarteirão, vi a Ferrari vermelha vindo em minha direção, parei e tentei enxergar quem estava no volante. Matt.
  Dei meia volta decidida a pegar outro caminho, mas o carro me alcançou e parou ao meu lado. Matt desceu o vidro do carro e olhou para mim.
  - Ally, então voc...- ele começou a falar, mas eu parei de prestar atenção ao sentir algo atingindo minha testa com força. Uma dor se espalhou em minha cabeça e toquei onde alguma coisa batera em minha testa. Levei minha mão em frente aos meus olhos e vi sangue.
  - Mas o que?- eu murmurei, então olhei para baixo, ao mesmo tempo em que Matt abria a porta e vinha ver o que houve, junto dele: Missie e Carl.
  - Ally, você está bem?- Missie perguntou preocupada.
  - Alguma coisa me acertou- eu falei me agachando e pegando uma pedra. Ela tinha sangue em uma parte e na outra havia uma papel preso por uma fita. Sentei-me no chão rodeada pelo grupo que acabara de chegar, e desamarrei a linha jogando-a no chão e pegando o papel. Ele estava dobrado, então o desdobrei lendo o que estava escrito: 1-1. Quais ama.
  - O que é Ally?- Carl perguntou como se fôssemos amigos.
  - Não é do interesse de vocês- eu falei levantando-me e passando a manga do moletom em cima do ferimento.
  - Ei, Ally! Devemos ir à delegacia!- Missie falou preocupada- Isso poderia ter te matado.
  - Mas não matou- eu falei saindo de perto deles e prosseguindo o meu caminho.
  - Quer uma carona?- Matt perguntou meio sem jeito.
  - Wow!- eu exclamei sem me virar para ele- Semana passada, recebo um balde de tinta rosa em minha cabeça, hoje, uma carona!- dei uma longa gargalhada.
  - Ally- Matt falou me alcançando- Nós fazemos isso com todos que entram na escola, é tipo um ritual. Nós mesmos sofremos por isso, e depois nos enturmamos.
  - Que ritual mais infantil- eu falei parando e me virando para ele- O que você quer de mim?
  - Ally, o que você passou foi horrível e queríamos nos desculpar- ele falou com sinceridade- E queríamos dar...dar nossos sentimentos pelo o que houve.
  - Ele era a coisa mais importante que eu tinha- eu murmurei com os olhos lacrimejando.
  - Você não acha que precisa de amigos para reconfortar esta dor?- ele perguntou apontando para Missie e Carl. Nunca tivera amigos, então não sabia como era tê-los. Olhei um pouquinho para cada um e...continuei o caminho.
  - Ei! Ally...- Missie me chamou.
  - Okay, eu vou aceitar a carona- eu falei me virando e indo em direção ao carro- Só porque nunca andei de Ferrari.
  - É um progresso- Matt falou dando um sorriso amigável. Entrei no banco e trás junto com Missie e senti mais sangue escorrendo. Passei a manga do moletom sobre a ferida novamente.
  - É melhor a levarmos ao hospital- Missie falou olhando preocupada para meu ferimento.
  - Há uma enfermaria no abrigo em que estou, então não há problema algum- eu falei olhando a paisagem enquanto o carro percorria seu caminho. Um telefone começou a tocar, demorei um pouco para perceber que era meu. Após todos negarem que o toque eram deles, eu peguei o meu telefone em meu bolso e atendi.
  - Alô?- eu perguntei com a voz duvidosa.
  - Pobre Ally, você ainda tem muito para sofrer, minha jovem querida- uma voz melosa e fria saiu do telefone.
   - Quem é?- Missie perguntou. Coloquei no viva voz encolhendo os ombros.
  - Estou lhe observando. Cada passo. Cada palavra. Tudo. Um dia iremos nos reencontrar, minha flor, e você irá dar o que me pertence! Aliás, entrar no necrotério é nojento!- a dona da voz desligou. Todos me olharam desconfiados, assim como olhei para o telefone desconfiada.
  - Adelle- eu murmurei enquanto as engrenagens de meu cérebro funcionavam. O telefone tocou novamente.
  - Que história é esta?- Carl perguntou virando sua cabeça e olhando para mim do banco da frente. Balancei minha cabeça em forma negativa e atendi ao telefone.
  - Ally? Ally?- ouvi a voz de Vivian- Ally, onde você está?
  - Estou indo para o meu abrigo- eu falei ainda meio assustada devida aquela ligação.
  - Ally, quero que vá ao hospital imediatamente- ela falava com a voz agitada.
  - Por que, o que houve?- eu perguntei esperançosa de que Jorge tivesse “revivido”.
  - O corpo de Jorge- ela falou, não entendi- Ele foi roubado, não estão achando o corpo de Jorge no necrotério.


terça-feira, 24 de maio de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 6

Depois de pegar tudo o que fosse necessário para meu uso no abrigo, Vivian e o outro policial me conduziram até o carro para me levarem até lá. Colocaram minhas poucas coisas no porta-malas e demos início à “viagem”. Depois de um tempo não muito longo, mas não muito curto, chegamos ao abrigo, e era praticamente um orfanato. Um frio percorreu minha espinha.
  - Até quando vou ficar aqui?- eu perguntei com a voz fraca e rouca, e ao mesmo tempo me esforçando para não ficar chorando.
  - Uma semana mais ou menos. Ou duas- Vivian falou com uma expressão meio culpada.
  O policial abriu o porta-malas do carro, revistou o conteúdo que estava na pequena caixa e a tirou do carro a levando para dentro do abrigo. Ao entrar lá dentro,  meu coração acelerou, não tinha boas experiências com locais como este. Ele pousou a caixa no balcão da recepcionista e começou a conversar com ela sobre seja lá o que, e entregar um papel com alguma coisa qualquer escrita. Sentei-me em uma das cadeiras cobrindo meu rosto com as mãos e pousando meus cotovelos sobre minhas pernas. Isso era uma maneira estranha de esconder as lágrimas. Ao sentir alguém me cutucando no braço, ergui a cabeça lentamente e olhei para o lado.
  - Vamos- Vivian me disse fazendo um sinal com as mãos me dizendo que deveria acompanhá-la.
  A moça que estava no caixa pegou uma chave enferrujada e começou a nos guiar pelos extensos corredores do local, aquilo era como um labirinto. Depois de andarmos por um tempo e subirmos algumas escadas, ela abriu uma porta, no que parecia ser o quinto andar, e pediu para que entrássemos. Erro o dela.  Mal cabiam duas pessoas no quarto de tão minúsculo que era: uma pequena cama posta ao canto do quarto com uma mesinha e uma cadeira ao lado, e na frente da cama um pequeno armário. O policial colocou a caixa sobre a cama e saiu do quarto ficando parado ao lado da porta. Provavelmente deveria entrar. Olhei em volta tentando achar alguma coisa boa: tinha um quarto só meu. Voltei à estaca zero: sem pais, sem amigos, sem um lar de verdade. Apenas naquele abrigo, sozinha e sem o amor de Jorge.
  - Há alguns deveres escritos em um papel que está logo atrás da porta mocinha. Respeite as ordens- a recepcionista falou enquanto eu dava um giro de 360°graus para ver o local. Depois de falar isso, saiu andando pelos corredores para voltar ao trabalho.
  Vivian me deu algumas instruções e regras do local e depois disso me deixou sozinha no quarto, indo embora com o policial. Fechei e tranquei a porta e me joguei na cama, sentindo um pequeno cheiro de mofo. E comecei a chorar, e depois dormi.
  Acordei apenas na manhã seguinte já estranhando o porquê de não estar sentindo o delicioso cheiro das panquecas de Jorge. Ah, é. Havia me esquecido. Ele morreu. Estou em um abrigo. Com cheiro de mofo. Aguardando as digitais.
  Decidi não ir à escola e não tomar café da manhã, que tinha o horário certo neste lugar. Como em todos os outros. Fiquei o dia inteiro na cama, até me lembrar de que precisava me instalar no local. Levantei-me com esforço e comecei a guardar algumas mudas de roupas que trouxera no armário, e colocar alguns livros e cadernos da escola na mesinha. Quem sabe se eu fizer os deveres isso me distraia? Passei a tarde fazendo lições e estudando para tirar Jorge da cabeça e imaginando como seria voltar para a escola depois de uma tragédia como essa. Receber os avisos de reuniões de pais. Os bailes de pais e filhas. Droga, se concentre na lição, Ally!
  Comecei a sentir fome e me lembrei dos armários de casa, e na geladeira. Meu estômago roncou e me lembrei que não comera nada desde a última noite. Pensei em ir para casa e pegar a comida de lá, mas não trouxera meu carro.
  Olhei o horário em meu celular e já passara do horário em que davam a janta, então peguei minhas coisas para ir tomar banho. Fui caminhando pelo corredor tentando achar o banheiro então achei a secretária do local vindo em minha direção.
  - O horário já passou. Depois das 20:00 ninguém deve sair de seu dormitório- ela falou parando em minha frente com um ar de superioridade.
  - Mas eu perdi a hora e eu não poss...
  - Calada! Volte ao seu dormitório imediatamente!- ela levantou o tom de voz para me interromper.
  Olhei para ela com cara feia e voltei o meu dormitório. Okay, aquilo com toda certeza era traumático! Esse lugar é tenebroso e me lembra muito um orfanato, do qual eu tinha apenas uma “amiga”, que era a senhora que me achara na porta e me dera esse nome, Ally. Porém ela faleceu e eu fiquei sozinha, não tenho muitas memórias com ela, mas tenho o suficiente para saber que ela era a única coisa boa naquele local. Aqui não tem nada de bom.
  Adormeci rapidamente com aquele pensamento de ódio e medo misturados. Ao acordar, lembrei-me de que precisava voltar à escola, só não sabia como. Iria passar pelo menos uma semana quieta tentando construir a máscara de “está tudo bem”, quando na realidade não está. Coloquei um moletom largo e pantufas que Jorge uma vez me dera no inverno, quando a temperatura estava muito baixa, e sai do quarto para ir até o refeitório para tomar café da manhã. Estava faminta. Porém não me lembrava muito bem do lugar em que ficava.
  Depois de 10 minutos procurando, finalmente cheguei ao refeitório a tempo de comer alguma coisa. Entrei na fila de várias garotas, mas nenhum garoto, provavelmente o lugar era apenas para garotas. Depois de mais cinco minutos, a fila acabou e eu peguei uma bandeja meio suja e comecei a me servir. Um café, um mini pacote de biscoitos/bolachas e um pão sem recheio. Sentei-me em uma mesa que não havia ninguém e comecei a me servir, até chegar um grupo de três garotas e se sentarem comigo.
  - Olá, parece que é nova aqui. Qual seu nome?- uma menina de cabelo azul me perguntou.
  - Ally- eu disse com a voz fraca e fria.
  - Então...Ally, o que lhe trouxe aqui?- uma morena me perguntou sorrindo. 
  - Por que querem saber?- eu perguntei e em seguida sai da mesa e coloquei o pacote no bolso e fui para meu dormitório comendo e bebendo o café. Não gostava de ser grossa com as pessoas, mas não pude evitar. Aquelas garotas me lembravam as do orfanato, das quais era frias e nojentas; porém não sabia a personalidade delas. De qualquer jeito, não preciso de ninguém querendo saber de minha vida. Ela não é interessante e está em um momento triste e sombrio.
  Ao entrar em meu dormitório, que não achara com muita facilidade, já havia terminado de comer e me deitei na cama novamente. Cochilei por mais um tempo até acordar com o telefone tocando.
  - Alô?- eu perguntei com a voz cansada.
  - Ah! Ainda bem que atendeu, aqui é o Matt...não sei se lembra de mim mas...queria saber o que está acontecendo e...
  - Escuta aqui: primeiro você me humilha, me trata como lixo e ainda quer saber o que houve com a minha vida? Volte para as suas duas namoradinhas e planejem a próxima maldade que irão fazer com seu próximo alvo!- eu disse com a voz alta e carregada de ódio e desliguei antes que pudesse dizer qualquer coisa. O celular voltou a tocar e eu o desliguei e bloqueei o contato de Matt. Por que as pessoas são tão intrometidas?
 

Uma semana se passou e eu continuava naquele local que tanto me trazia memórias ruins, até que quando estava lendo um pouco para distrair minha cabeça, o meu celular tocou, quero dizer, todo dia tocava. Mas dessa vez era o número da delegacia.
  - Bom dia, Srta. Spinnet.
  - Só Ally- eu corrigi o policial que estava na linha, Spinnet era o sobrenome de Jorge, o que fazia lembrar-me dele.
  - Hã...Srta. Ally- ele disse meio sem jeito-, o resultado das digitais saiu ontem de manhã e gostaríamos que viesse aqui na delegacia para que pudéssemos revelá-los.

  - Sim, já estou indo- eu falei dando um salto da cadeira e já abrindo a porta do dormitório. Estava com um moletom cinza e pantufas rosa, mas dane-se, precisava daqueles resultados. Precisava vingar Jorge. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 5

Não consegui dizer mais nada. Ele acabara de conhecer a moça. Como já queria se casar?! Isso não é um conto de fadas.
 - Seremos uma linda família!- ele diz com um sorriso radiante no rosto, como alguém que realmente está feliz.
 - Desculpa, mas agora tenho de usar seu escritória urgentemente- Adelle disse-, mas tarde nós conversamos querida!- ela apertou minha bochecha e subiu as escadas em direção ao escritório. Odiei aquela atitude.
 - Ally, querida, você terá de arranjar um espaço para dividir  quarto com Agnes, só por um tempo até reformarmos a casa ou até comprarmos uma casa nova- Jorge diz com uma voz feliz. Realmente, ele acredita em tudo isso?
  Subi e logo fui para meu quarto, bati a porta com força e deitei. Fiquei olhando para o teto desejando que ele ganhasse uma boca e me comesse, só para não ter de conviver com essas duas. Se Agnes é uma completa vaca, imagine a mãe. Fiquei pensando em inúmeras possibilidades de fazer com que Jorge perceba que amor não é tão simples assim e que isso é uma baita mentira. Tantas possibilidades, tantas. Mas nenhuma faz sentido. Nada faz sentido. Principalmente quando você está dormindo. Uma imagem do casamento do dois passou pela minha cabeça, e depois um unicórnio esmagou Adelle. E Agnes virou uma cobra. Estou sonhando. Essa cobra me picou, bem no peito, onde estaria o meu coração, e com isso acordei assustada e suando.
Um policial estava me cutucando a chamando meu nome. Não havia policiais em casa.
 - Quem é você?- eu perguntei me sentando na cama, e instantaneamente, senti um aperto no coração. Minha respiração estava rápida, como se alguém tivesse me enforcado e depois me soltado. Exatamente como aconteceu entre Agnes e eu- O que aconteceu?- eu perguntei ao ver que o policial não me respondeu, só me olhou com uma olhar triste, muito triste.
 - O que está acontecendo?!- dessa vez eu gritei.
 - Venha- ele disse me guiando pela casa, como se eu nem morasse aqui.
Ao chegar no andar debaixo, haviam vários policias, sangue espirrado nas paredes ao lado da porta e alguns paramédicos entrando e saindo de casa. Meus olhos começaram a lacrimejar.
Lembra quando disse que hoje fora um dia completamente normal? Mentira! Jorge estava deitado em uma maca com uma um furo profundo no meio do peito. Comecei a chorar desesperadamente. Quando me perceberam ao lado da maca e chorando 10 vezes pior do que um criança quando alguém rouba o pirulito dela, me tiraram de lá a força, pois não queria sair, precisava ficar ao lado de Jorge. Uma dor enorme penetrou em meu coração. Algo devastador, como se alguém tivesse arrancado o meu coração. Os policias me sentaram no sofá, me deixaram lá na esperança de eu me acalmar. Mas não conseguia. Uma policial chegou ao meu lado e me ofereceu um lencinho, aceitei, mas o choro não cessava.
  - Recebemos uma denuncia anônima de uma assassinato nesta rua. Ao chegarmos não havia ninguém. Entramos aqui e...- ela não terminou a frase, ao invés disso, deu continuidade a outra- Chamamos a ambulância e enquanto alguns paramédicos analisavam seus ferimentos, rondamos a casa. E um policial achou apenas você aqui. Sabe se alguma coisa aconteceu?- sua voz era calma, não parecia aquele tipo de policial fria, mas aquela mais calma.
 - Não- eu disse em meio as lágrimas- Eu estava dormindo. Acordei com um policial no meu quarto e...- me lembrei de Adelle e Agnes, o choro diminuiu um pouco, pois agora a raiva estava tomando conta de mim- Mas antes disso haviam duas mulheres aqui. Agnes e Adelle, mãe e filha.
 - Okay, obrigada pela informação viu? Nós agora vamos esperar você se acalmar e depois a levaremos ao interrogatório. Mas antes disso, você é filha?
 - Adotada.
 - Parentes com quem eu possa contatar?
 - Não- eu disse, o choro aumentou mais, pois me lembrei que nunca tivera mão, tios, avós. Só o Jorge, e agora ele estava...Morto.
 Depois de meia hora, me conduziram a um carro de policia e ao caminhar, vi Matt e seus pais do lado de fora da casa conversando com um policial. Matt deu um leve sorriso para mim, consolador e não debochador, mas não retribui. Será que eles fizeram a denúncia anônima?
 Depois de 15 minutos chegamos a delegacia, havia bastante movimento lá. Particularmente gostaria, quero dizer, precisava de estar no hospital com Jorge, mesmo sabendo que ele não está vivo mas...sabe quando você precisa daquela pessoa? Quando ela faz parte de você e você a perde? Dói muito. Falo isso por experiência, quero dizer, acabei de perder meu "pai", o cara que cuidou de mim, me ajudou nas lições de casa, me salvou de um lugar horrível! Como posso superar isso? Depois de um tempo tentando me acalmar, finalmente parei de chorar. Mas sentia que a sensação ia voltar logo. Então perguntei em voz alta que horas seria o interrogatório.
 - Agora mesmo- a policial se sentou ao meu lado e deu um sorriso consolador- Vamos.
 - Você que vai fazer o interrogatório?- eu perguntei com voz rouca.
 - Não, outro policial. Escute: relaxe e só conte verdades, fale como foi seu dia, o que você fez. Até o que comeu ou com quem ficou- ela disse abrindo a porta de uma sala totalmente cinza, com duas cadeiras e uma mesa exposta ao meio delas- A propósito, meu nome é Vivian.
  Entrei na sala e no mesmo instante, um policial entrou com uma pasta, provavelmente informações. Ele tinha uma expressão ameaçadora.
  - Sente-se- ele disse com uma voz fria; me sentei. Ele abriu a pasta em alguma página qualquer e ao ver alguma informação, uma expressão de surpresa passou pelo seu rosto. Mas não disse nada.
 - Algum problema?- eu perguntei, tentando manter a voz firme.
 - Spinnet é o sobrenome de Jorge certo?- ele perguntou fechando a pasta e a colocando sobre a mesa.
 - Sim. Uma ano após ele me adotar, nos fomos ao cartório e ele me deu o sobrenome dele. Minha mãe me abandonou e sequer me deu um nome- eu disse me lembrando do que me disseram por lá. Colocaram esse nome em mim porque, de acordo com elas, era um nome bonito para se dar a uma menina bonita.
 - O que você fez hoje?- ele perguntou.
 - O de sempre: fui para escola, voltei para casa, encontrei Jorge que era para chegar um dia depois, na Sexta, e com ele estavam: Agnes e Adelle, filha e mãe. Ele disse que iria se casar com ela, que se conheceram em Nova Iorque quando ele viajou à trabalho. Ah! Antes de ir dormir, Adelle disse que iria fazer alguma coisa no escritório dele e depois...como já disse, fui dormir.
 - Bem, não posso acreditar em meras palavras de uma adolescente qualquer. Preciso fazer mais perguntas e iremos colher digitais da arma do crime- ele disse. Em seguida, mais e mais perguntas sobre o que fiz hoje, minha relação com Jorge, sobre a minha vida, quando nos mudamos para cá e etc. Depois de uma hora e meia apenas respondendo perguntas. Fui liberada para ir até o hospital. Vivian foi comigo.
 Ao chegar, Vivian foi falar direto com a recepcionista e ela nos encaminhou a um médico que cuidara dos ferimentos de Jorge. Depois de Vivian e o médico conversarem sobre o crime, provavelmente, até porque não pude ouvir, tive de ficar sentada esperando notícias. Depois de um tempo curto esperando e pensando em memórias engraçadas e felizes para não ficar chorando, Vivian se sentou ao meu lado.
 - E aí?- eu perguntei com a mesma voz rouca do interrogatório.
 - Você pode vê-lo uma última vez e...bem, uma última vez- ela disse com uma expressão triste no rosto. Não aguentei, desabei em um choro silencioso e fui até a sala em que ele estava deitado em uma maca.
 - Posso ficar sozinha com ele?- eu perguntei olhando para Vivian, tentando fazer uma expressão muito mais triste para que pudesse ter um momento a sós. Ela assentiu e ficou me esperando do lado de fora da sala.
 - Jorge...- eu disse chorando, peguei sua mão, fria como a neve- Eu te amo, nunca irei me esquecer de você- me debrucei sobre ele e o abracei. O último abraço. Último toque. Última palavra- Obrigada, por tudo.
 Não sou nada boa com despedidas, até porque nunca me despedi de ninguém, agora sei como dói. Vivian abriu a porta fez um gesto com a mão pedindo que a seguisse.
 - É o seguinte: se você quiser, podemos fazer um velório ou se preferir...- já sabia o que ela ia dizer. Preferia a segunda opção, menos dolorida e rápida. Eu não ia querer vê-lo sendo cremado, simplesmente pedi para que me mandassem as cinzas- Mas, infelizmente não temos dinheiro para bancar isso. Teremos de ver como está a conta bancária dele e assim que for tirada as digitais, iremos passar a herança para você, se ele deixou mesmo para você no documentos, e definir como será realizado esse processo. Daqui uma semana os resultados irão sair.
Vivian me levou em casa junto de outro policial e pediu para que empacotasse tudo que fosse usar para levar a um abrigo, pois ficaria alguns dias lá. Até decidir o que seria feito comigo. Até poderia comprar um apartamento mais para frente se a herança fosse deixada comigo, se Adelle não tivesse sabotado alguma coisa em relação as digitais para me fazer parecer culpada.
Praticamente tudo depende das digitais.
E tenho certeza de que são de Adelle.




quinta-feira, 7 de abril de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 4

Depois de chegar em casa muito satisfeita com minha vingança, logo me enrolei em minha cobertas para ter uma ótima noite de sono, sabendo que estava vencendo.
Acordei, não queria sair da cama, mas logo me lembrei do que havia feito ontem. Onde é que estava com a cabeça? E se me pegassem...me expulsassem...ou pior: contassem para Jorge? "O que foi feito, está feito", tentei colocar isso na minha cabeça, mas não funcionou. Levantei da minha cama e me arrumei rápido, quem sabe eu não tivesse tempo para excluir meu comentário no blog e tirar as fotos da escola? Mas não, faltavam 30 minutos para o sinal bater e todos entrarem na sala, estava atrasada; malditos 5 minutos que se tornaram quase 30. Tomei café da manhã rápido e fui direto para o carro, sai correndo para escola. No meio quase atropelara um pombo, mas por sorte ele voou a tempo.
Cheguei faltando 10 minutos mais ou menos para as aulas de iniciarem. Entrei correndo na escola e vi várias pessoas olhando para os cartazes. Diminui a velocidade para não aumentar suspeitas e enquanto passava pelo corredor ouvi: "Essa não é Olívia e aquele garoto, o Matt?", "Agnes vai odiar ver isso", "Descarado!", "Quem foi a mente brilhante que fez isso? Bem feito para aquele casal lixo! Mereceram!". Sorri discretamente. Ao passar por um corredor, vi uma foto que provavelmente fora rasgada da parede, na mão de Agnes enquanto ela chorava e gritava de raiva com Olívia. Havia uma pequena multidão de formado em volta das duas. Onde você está Matt? Não pude resistir e ao passar por elas, disse:
  - Quem será que tirou essas fotos? Brilhante- algumas pessoas me olharam duvidosas, outras com um sorriso meio disfarçado no rosto porque com isso já perceberam que eu era a "mente brilhante".
  O sinal tocou. Peguei meus livos correndo e entrei na sala de matemática, sentei em meu lugar e vi umas três pessoas tirando as fotos que estavam debaixo da carteira, uma delas foi o Matt. Ele olhou para a foto assustado e a rasgou e jogou no lixo. Sorte a dele, a aula do dia de hoje não é em companhia de Agnes ou Olívia. Eu virei para trás enquanto o professor olhava o livro dele e meus olhos de encontraram com os de Matt.
 - Quem mais você vai beijar?- olhei para ele e joguei um beijo em sua direção, sarcasticamente.




Na saída, encontrei Carl, Missie e Tyler ao redor de Matt e Agnes, disfarcei mexendo no meu armário para poder ouvir a discussão:
  -Você me traiu com aquela...aquela- ela rompeu em lágrimas.
  - Olha, eu posso explicar, Ally só estava com raiva da gente e...- ele não terminou, Olívia passou por perto e o pegou pelo braço e lhe deu um beijo.
  - Você me dá carona ursinho?- aquela voz melosa e fina me faz ficar completamente enjoada.
  - Claro, ursinho- ele diz meio embaraçado.
  - E ainda a chama como você me chamava?!- ao dizer isso, ela passou pelo meu armário e me viu. Droga, devia ter me escondido em outro lugar.
  O rosto dela ficou completamente vermelho e ela avançou para cima de mim gritando um monte de palavrões, me pegou pelo pescoço me colocando contra os armários, não conseguia processar mais nada, estava ficando sem ar, precisava desesperadamente de ar. Tentei tirar as mãos dela de minha gargante,inútil. Graças à Deus Carl a tirou se perto de mim, juntamente de Missie. Agnes saiu correndo e Missie foi atrás, enquanto eu me ajoelhei no chão e comecei a repor minha respiração.
 - Você está bem?- Carl perguntou em tom preocupado, demorei para responder pois estava ocupada demais repondo minha respiração e porque não sabia se ele estava falando sério.
  - Sim- eu disse olhando para ele, eu menti, pois meu pescoço estava doendo muito. Ele me ajudou a levantar e se ofereceu para me dar carona, falando que Missie não se importava. Olhei desconfiada para ele e disse não.
  No dia seguinte, tudo estava bem, normal, ou sem dramas. Até porque Agnes, Matt ou Olívia não foram para escola. Matando aula...provavelmente.
  Prova já marcada, mais um bolo de lições de casa e aquele cheiro de creme para espinhas. Normal. Isso é a escola. Meu dia, por incrível que pareça, estava normal, amanhã já seria sexta, ainda bem, e logo veria Jorge novamente. É horrível fica sem ele. Peguei minha picape e fui para a casa. Ao estacionar o carro na garagem, vi que o carro de Jorge já estava lá. Meu coração começou a bater mais forte. Finalmente.
  - Olá Jorge! Você não..- eu comecei a falar ao abrir a porta de casa, mas não terminei pois vi Jorge segurando a mão de uma morena alta, e linda. E Agnes sentada no sofá com olhos meio inchados.
  - Oi!- Jorge disse, ia se soltar da moça, mas ela não o deixou vir me abraçar.
  - Como vai?- ela disse com um sorriso enorme no rosto.
  - Quem é ela?- eu disse, sequer respondi a moça. Só queria saber quem era aquela mulher. Alguma coisa em seu olhar não me agrada.
  - Bom...desculpa por não te contar por telefone ou mensagem, é algo para se dizer pessoalmente- meu coração começou a bater com ainda mais força-, quando fui viajar a trabalho, conheci essa maravilhosa mulher, que também estava lá, em Nova Iorque, a trabalho. E nos apaixonamos. Passamos uma noite inteira conversando, nos conhecendo. Então, gostaria de apresentar-lhe: Adelle e Agnes, sua futura mãe e irmã!