terça-feira, 24 de maio de 2016

De cabeça para baixo, capítulo 6

Depois de pegar tudo o que fosse necessário para meu uso no abrigo, Vivian e o outro policial me conduziram até o carro para me levarem até lá. Colocaram minhas poucas coisas no porta-malas e demos início à “viagem”. Depois de um tempo não muito longo, mas não muito curto, chegamos ao abrigo, e era praticamente um orfanato. Um frio percorreu minha espinha.
  - Até quando vou ficar aqui?- eu perguntei com a voz fraca e rouca, e ao mesmo tempo me esforçando para não ficar chorando.
  - Uma semana mais ou menos. Ou duas- Vivian falou com uma expressão meio culpada.
  O policial abriu o porta-malas do carro, revistou o conteúdo que estava na pequena caixa e a tirou do carro a levando para dentro do abrigo. Ao entrar lá dentro,  meu coração acelerou, não tinha boas experiências com locais como este. Ele pousou a caixa no balcão da recepcionista e começou a conversar com ela sobre seja lá o que, e entregar um papel com alguma coisa qualquer escrita. Sentei-me em uma das cadeiras cobrindo meu rosto com as mãos e pousando meus cotovelos sobre minhas pernas. Isso era uma maneira estranha de esconder as lágrimas. Ao sentir alguém me cutucando no braço, ergui a cabeça lentamente e olhei para o lado.
  - Vamos- Vivian me disse fazendo um sinal com as mãos me dizendo que deveria acompanhá-la.
  A moça que estava no caixa pegou uma chave enferrujada e começou a nos guiar pelos extensos corredores do local, aquilo era como um labirinto. Depois de andarmos por um tempo e subirmos algumas escadas, ela abriu uma porta, no que parecia ser o quinto andar, e pediu para que entrássemos. Erro o dela.  Mal cabiam duas pessoas no quarto de tão minúsculo que era: uma pequena cama posta ao canto do quarto com uma mesinha e uma cadeira ao lado, e na frente da cama um pequeno armário. O policial colocou a caixa sobre a cama e saiu do quarto ficando parado ao lado da porta. Provavelmente deveria entrar. Olhei em volta tentando achar alguma coisa boa: tinha um quarto só meu. Voltei à estaca zero: sem pais, sem amigos, sem um lar de verdade. Apenas naquele abrigo, sozinha e sem o amor de Jorge.
  - Há alguns deveres escritos em um papel que está logo atrás da porta mocinha. Respeite as ordens- a recepcionista falou enquanto eu dava um giro de 360°graus para ver o local. Depois de falar isso, saiu andando pelos corredores para voltar ao trabalho.
  Vivian me deu algumas instruções e regras do local e depois disso me deixou sozinha no quarto, indo embora com o policial. Fechei e tranquei a porta e me joguei na cama, sentindo um pequeno cheiro de mofo. E comecei a chorar, e depois dormi.
  Acordei apenas na manhã seguinte já estranhando o porquê de não estar sentindo o delicioso cheiro das panquecas de Jorge. Ah, é. Havia me esquecido. Ele morreu. Estou em um abrigo. Com cheiro de mofo. Aguardando as digitais.
  Decidi não ir à escola e não tomar café da manhã, que tinha o horário certo neste lugar. Como em todos os outros. Fiquei o dia inteiro na cama, até me lembrar de que precisava me instalar no local. Levantei-me com esforço e comecei a guardar algumas mudas de roupas que trouxera no armário, e colocar alguns livros e cadernos da escola na mesinha. Quem sabe se eu fizer os deveres isso me distraia? Passei a tarde fazendo lições e estudando para tirar Jorge da cabeça e imaginando como seria voltar para a escola depois de uma tragédia como essa. Receber os avisos de reuniões de pais. Os bailes de pais e filhas. Droga, se concentre na lição, Ally!
  Comecei a sentir fome e me lembrei dos armários de casa, e na geladeira. Meu estômago roncou e me lembrei que não comera nada desde a última noite. Pensei em ir para casa e pegar a comida de lá, mas não trouxera meu carro.
  Olhei o horário em meu celular e já passara do horário em que davam a janta, então peguei minhas coisas para ir tomar banho. Fui caminhando pelo corredor tentando achar o banheiro então achei a secretária do local vindo em minha direção.
  - O horário já passou. Depois das 20:00 ninguém deve sair de seu dormitório- ela falou parando em minha frente com um ar de superioridade.
  - Mas eu perdi a hora e eu não poss...
  - Calada! Volte ao seu dormitório imediatamente!- ela levantou o tom de voz para me interromper.
  Olhei para ela com cara feia e voltei o meu dormitório. Okay, aquilo com toda certeza era traumático! Esse lugar é tenebroso e me lembra muito um orfanato, do qual eu tinha apenas uma “amiga”, que era a senhora que me achara na porta e me dera esse nome, Ally. Porém ela faleceu e eu fiquei sozinha, não tenho muitas memórias com ela, mas tenho o suficiente para saber que ela era a única coisa boa naquele local. Aqui não tem nada de bom.
  Adormeci rapidamente com aquele pensamento de ódio e medo misturados. Ao acordar, lembrei-me de que precisava voltar à escola, só não sabia como. Iria passar pelo menos uma semana quieta tentando construir a máscara de “está tudo bem”, quando na realidade não está. Coloquei um moletom largo e pantufas que Jorge uma vez me dera no inverno, quando a temperatura estava muito baixa, e sai do quarto para ir até o refeitório para tomar café da manhã. Estava faminta. Porém não me lembrava muito bem do lugar em que ficava.
  Depois de 10 minutos procurando, finalmente cheguei ao refeitório a tempo de comer alguma coisa. Entrei na fila de várias garotas, mas nenhum garoto, provavelmente o lugar era apenas para garotas. Depois de mais cinco minutos, a fila acabou e eu peguei uma bandeja meio suja e comecei a me servir. Um café, um mini pacote de biscoitos/bolachas e um pão sem recheio. Sentei-me em uma mesa que não havia ninguém e comecei a me servir, até chegar um grupo de três garotas e se sentarem comigo.
  - Olá, parece que é nova aqui. Qual seu nome?- uma menina de cabelo azul me perguntou.
  - Ally- eu disse com a voz fraca e fria.
  - Então...Ally, o que lhe trouxe aqui?- uma morena me perguntou sorrindo. 
  - Por que querem saber?- eu perguntei e em seguida sai da mesa e coloquei o pacote no bolso e fui para meu dormitório comendo e bebendo o café. Não gostava de ser grossa com as pessoas, mas não pude evitar. Aquelas garotas me lembravam as do orfanato, das quais era frias e nojentas; porém não sabia a personalidade delas. De qualquer jeito, não preciso de ninguém querendo saber de minha vida. Ela não é interessante e está em um momento triste e sombrio.
  Ao entrar em meu dormitório, que não achara com muita facilidade, já havia terminado de comer e me deitei na cama novamente. Cochilei por mais um tempo até acordar com o telefone tocando.
  - Alô?- eu perguntei com a voz cansada.
  - Ah! Ainda bem que atendeu, aqui é o Matt...não sei se lembra de mim mas...queria saber o que está acontecendo e...
  - Escuta aqui: primeiro você me humilha, me trata como lixo e ainda quer saber o que houve com a minha vida? Volte para as suas duas namoradinhas e planejem a próxima maldade que irão fazer com seu próximo alvo!- eu disse com a voz alta e carregada de ódio e desliguei antes que pudesse dizer qualquer coisa. O celular voltou a tocar e eu o desliguei e bloqueei o contato de Matt. Por que as pessoas são tão intrometidas?
 

Uma semana se passou e eu continuava naquele local que tanto me trazia memórias ruins, até que quando estava lendo um pouco para distrair minha cabeça, o meu celular tocou, quero dizer, todo dia tocava. Mas dessa vez era o número da delegacia.
  - Bom dia, Srta. Spinnet.
  - Só Ally- eu corrigi o policial que estava na linha, Spinnet era o sobrenome de Jorge, o que fazia lembrar-me dele.
  - Hã...Srta. Ally- ele disse meio sem jeito-, o resultado das digitais saiu ontem de manhã e gostaríamos que viesse aqui na delegacia para que pudéssemos revelá-los.

  - Sim, já estou indo- eu falei dando um salto da cadeira e já abrindo a porta do dormitório. Estava com um moletom cinza e pantufas rosa, mas dane-se, precisava daqueles resultados. Precisava vingar Jorge. 

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