Depois de pegar tudo o que fosse necessário para meu uso no
abrigo, Vivian e o outro policial me conduziram até o carro para me levarem até
lá. Colocaram minhas poucas coisas no porta-malas e demos início à “viagem”. Depois
de um tempo não muito longo, mas não muito curto, chegamos ao abrigo, e era
praticamente um orfanato. Um frio percorreu minha espinha.
- Até quando vou
ficar aqui?- eu perguntei com a voz fraca e rouca, e ao mesmo tempo me
esforçando para não ficar chorando.
- Uma semana mais ou
menos. Ou duas- Vivian falou com uma expressão meio culpada.
O policial abriu o
porta-malas do carro, revistou o conteúdo que estava na pequena caixa e a tirou
do carro a levando para dentro do abrigo. Ao entrar lá dentro, meu coração acelerou, não tinha boas
experiências com locais como este. Ele pousou a caixa no balcão da
recepcionista e começou a conversar com ela sobre seja lá o que, e entregar um
papel com alguma coisa qualquer escrita. Sentei-me em uma das cadeiras cobrindo
meu rosto com as mãos e pousando meus cotovelos sobre minhas pernas. Isso era
uma maneira estranha de esconder as lágrimas. Ao sentir alguém me cutucando no
braço, ergui a cabeça lentamente e olhei para o lado.
- Vamos- Vivian me
disse fazendo um sinal com as mãos me dizendo que deveria acompanhá-la.
A moça que estava no
caixa pegou uma chave enferrujada e começou a nos guiar pelos extensos
corredores do local, aquilo era como um labirinto. Depois de andarmos por um
tempo e subirmos algumas escadas, ela abriu uma porta, no que parecia ser o
quinto andar, e pediu para que entrássemos. Erro o dela. Mal cabiam duas pessoas no quarto de tão
minúsculo que era: uma pequena cama posta ao canto do quarto com uma mesinha e
uma cadeira ao lado, e na frente da cama um pequeno armário. O policial colocou
a caixa sobre a cama e saiu do quarto ficando parado ao lado da porta.
Provavelmente deveria entrar. Olhei em volta tentando achar alguma coisa boa:
tinha um quarto só meu. Voltei à estaca zero: sem pais, sem amigos, sem um lar
de verdade. Apenas naquele abrigo, sozinha e sem o amor de Jorge.
- Há alguns deveres
escritos em um papel que está logo atrás da porta mocinha. Respeite as ordens-
a recepcionista falou enquanto eu dava um giro de 360°graus para ver o local.
Depois de falar isso, saiu andando pelos corredores para voltar ao trabalho.
Vivian me deu
algumas instruções e regras do local e depois disso me deixou sozinha no
quarto, indo embora com o policial. Fechei e tranquei a porta e me joguei na
cama, sentindo um pequeno cheiro de mofo. E comecei a chorar, e depois dormi.
Acordei apenas na
manhã seguinte já estranhando o porquê de não estar sentindo o delicioso cheiro
das panquecas de Jorge. Ah, é. Havia me esquecido. Ele morreu. Estou em um
abrigo. Com cheiro de mofo. Aguardando as digitais.
Decidi não ir à escola e não tomar café da
manhã, que tinha o horário certo neste lugar. Como em todos os outros. Fiquei o
dia inteiro na cama, até me lembrar de que precisava me instalar no local. Levantei-me
com esforço e comecei a guardar algumas mudas de roupas que trouxera no
armário, e colocar alguns livros e cadernos da escola na mesinha. Quem sabe se
eu fizer os deveres isso me distraia? Passei a tarde fazendo lições e estudando
para tirar Jorge da cabeça e imaginando como seria voltar para a escola depois
de uma tragédia como essa. Receber os avisos de reuniões de pais. Os bailes de
pais e filhas. Droga, se concentre na lição, Ally!
Comecei a sentir
fome e me lembrei dos armários de casa, e na geladeira. Meu estômago roncou e
me lembrei que não comera nada desde a última noite. Pensei em ir para casa e
pegar a comida de lá, mas não trouxera meu carro.
Olhei o horário em
meu celular e já passara do horário em que davam a janta, então peguei minhas
coisas para ir tomar banho. Fui caminhando pelo corredor tentando achar o
banheiro então achei a secretária do local vindo em minha direção.
- O horário já
passou. Depois das 20:00 ninguém deve sair de seu dormitório- ela falou parando
em minha frente com um ar de superioridade.
- Mas eu perdi a
hora e eu não poss...
- Calada! Volte ao
seu dormitório imediatamente!- ela levantou o tom de voz para me interromper.
Olhei para ela com
cara feia e voltei o meu dormitório. Okay, aquilo com toda certeza era
traumático! Esse lugar é tenebroso e me lembra muito um orfanato, do qual eu
tinha apenas uma “amiga”, que era a senhora que me achara na porta e me dera
esse nome, Ally. Porém ela faleceu e eu fiquei sozinha, não tenho muitas
memórias com ela, mas tenho o suficiente para saber que ela era a única coisa
boa naquele local. Aqui não tem nada de bom.
Adormeci rapidamente
com aquele pensamento de ódio e medo misturados. Ao acordar, lembrei-me de que
precisava voltar à escola, só não sabia como. Iria passar pelo menos uma semana
quieta tentando construir a máscara de “está tudo bem”, quando na realidade não
está. Coloquei um moletom largo e pantufas que Jorge uma vez me dera no
inverno, quando a temperatura estava muito baixa, e sai do quarto para ir até o
refeitório para tomar café da manhã. Estava faminta. Porém não me lembrava
muito bem do lugar em que ficava.
Depois de 10 minutos
procurando, finalmente cheguei ao refeitório a tempo de comer alguma coisa.
Entrei na fila de várias garotas, mas nenhum garoto, provavelmente o lugar era
apenas para garotas. Depois de mais cinco minutos, a fila acabou e eu peguei
uma bandeja meio suja e comecei a me servir. Um café, um mini pacote de
biscoitos/bolachas e um pão sem recheio. Sentei-me em uma mesa que não havia
ninguém e comecei a me servir, até chegar um grupo de três garotas e se
sentarem comigo.
- Olá, parece que é
nova aqui. Qual seu nome?- uma menina de cabelo azul me perguntou.
- Ally- eu disse com
a voz fraca e fria.
- Então...Ally, o que
lhe trouxe aqui?- uma morena me perguntou sorrindo.
- Por que querem
saber?- eu perguntei e em seguida sai da mesa e coloquei o pacote no bolso e
fui para meu dormitório comendo e bebendo o café. Não gostava de ser grossa com
as pessoas, mas não pude evitar. Aquelas garotas me lembravam as do orfanato,
das quais era frias e nojentas; porém não sabia a personalidade delas. De
qualquer jeito, não preciso de ninguém querendo saber de minha vida. Ela não é
interessante e está em um momento triste e sombrio.
Ao entrar em meu
dormitório, que não achara com muita facilidade, já havia terminado de comer e
me deitei na cama novamente. Cochilei por mais um tempo até acordar com o
telefone tocando.
- Alô?- eu perguntei
com a voz cansada.
- Ah! Ainda bem que
atendeu, aqui é o Matt...não sei se lembra de mim mas...queria saber o que está
acontecendo e...
- Escuta aqui:
primeiro você me humilha, me trata como lixo e ainda quer saber o que houve com
a minha vida? Volte para as suas duas namoradinhas e planejem a próxima maldade
que irão fazer com seu próximo alvo!- eu disse com a voz alta e carregada de
ódio e desliguei antes que pudesse dizer qualquer coisa. O celular voltou a
tocar e eu o desliguei e bloqueei o contato de Matt. Por que as pessoas são tão
intrometidas?
Uma semana se passou e eu continuava naquele local que tanto
me trazia memórias ruins, até que quando estava lendo um pouco para distrair
minha cabeça, o meu celular tocou, quero dizer, todo dia tocava. Mas dessa vez
era o número da delegacia.
- Bom dia, Srta.
Spinnet.
- Só Ally- eu
corrigi o policial que estava na linha, Spinnet era o sobrenome de Jorge, o que
fazia lembrar-me dele.
- Hã...Srta. Ally-
ele disse meio sem jeito-, o resultado das digitais saiu ontem de manhã e gostaríamos
que viesse aqui na delegacia para que pudéssemos revelá-los.
- Sim, já estou
indo- eu falei dando um salto da cadeira e já abrindo a porta do dormitório.
Estava com um moletom cinza e pantufas rosa, mas dane-se, precisava daqueles
resultados. Precisava vingar Jorge.